Odeio o Carnaval

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Odeio Carnaval com todas as minhas forças. Época em que o Brasil fica entorpecido com algo que não vejo a mínima graça e todo mundo acha que é justificativa para fazer qualquer coisa. Por exemplo, Carnaval é justificativa para muita gente ouvir e dançar o pior da música brasileira, achar que “faz parte” e que, sem essa “trolha sonora”, não tem a mesma graça.

Mas tem coisa pior. O brasileiro é socialmente obrigado a gostar de Carnaval. Por aqui, você diz que não gosta de Carnaval e todo mundo olha para você de forma estranha. Dois pensamentos são básicos: “pô, você não é brasileiro, não? Não ama o país em que nasceu?” ou “como você é chato e não sabe se divertir! Deve ser daqueles caras que veste um roupão, pega um cachimbo, se enfia na biblioteca da casa e se diverte ouvindo óperas alemãs e lendo Dostoievsky no original em russo”.

Considero-me mais brasileiro que muita gente e odeio Carnaval. Vejam alguns dos motivos para tamanha aversão (todos não caberiam nessa página).

Mangueira
Odeio a Mangueira. Odeio os trocadilhos que fazem com a Mangueira. Odeio as cores da Mangueira (desde quando verde combina com rosa?). Odeio a forma como as pessoas falam da Mangueira. Simplesmente odeio! O pior é agüentar a ladainha mangueirense todo ano. O desfile empolga (estilo “atrás da verde-e-rosa só não vai quem já morreu”) todo mundo e, no final das contas, a escola fica lá pelo 10º lugar. Hahahahahaha. Bem feito!

Transmissões do desfile
As transmissões dos desfiles são iguais todo ano. Os comentários são os mesmos. Ninguém vai mal, todo mundo põe a Sapucaí para dançar. Quem conhece a composição de um desfile, sabe que apenas 2% das pessoas que vão para a passarela do samba são mulheres sem roupas, como ex-BBBs e até mesmo acompanhantes de luxo. E as TVs só mostram essas (depois o brasileiro não sabe porque o europeu e o norte-americano acham que nosso país é uma orgia infinita). Porém, nada é pior que a Leci Brandão pedindo a bênção para as velhas guardas.

Bateria nota 10
Todas, ou melhor, TODAS as escolas de samba têm uma “bateria nota 10”. O mais engraçado é que, na hora de apurar os votos, várias “baterias notas 10” tiram 9 ou 8. Propaganda enganosa!

Noticiário
Parece que o cérebro do repórter (ou do editor que faz a pauta) foi pular carnaval e o resto do corpo tem de fazer a matéria. Porque são todas horríveis. As perguntas se limitam a “tem carnaval mais animado que esse?”, “a festa tem hora para acabar?”, “canta um trechinho do samba para a gente”, entre outras babaquices-mor. Mas fica pior. Mostram uns norte-americanos (quanto mais branquela a pele e havaianas as camisas melhor) desengonçados tentando entrar no ritmo do samba. Para concluir, os chavões regionais. Eles falam que na Bahia e em Pernambuco, “o carnaval ainda não acabou” (isso quando já estamos quase em maio). Como se fosse alguma novidade. Em São Paulo, falam que “paulista também sabe sambar”. E, no Rio, se referem ao “maior espetáculo da Terra”. Tudo mentira. Mentira como a da “bateria nota 10”.

Papo de carnavalesco
Muita teoria, muito blá-blá-blá. Tentam justificar relações loucas entre o enredo (qualquer que seja), o Jardim do Éden (todo enredo faz essa referência) e o Brasil de hoje (está na moda parecer que tem consciência social). É só dizer que pôs aquela ala ou aquele carro alegórico porque ficava bonito. Não precisa justificar. É como crítico de cinema que gostou de algum filme cabeça-oca e tenta dar explicações pseudo-intelectuais profundas para isso. Tem uma hora que nem você, nem o repórter que está fazendo a matéria e nem o próprio carnavalesco sabe mais do que está se falando.

Concurso de fantasias
Desde que a Rede Manchete virou história não se vê tanto esses concursos. O que é saudável, já que suspeito que a exposição prolongada ao concurso de fantasias do Hotel Glória (com Clóvis Bornay e tudo) pode deixar seqüelas nas pessoas.

Rede Manchete
A Manchete já não existe mais, porém, não dá para deixar passar em branco uma emissora de TV que fazia 24 horas de Carnaval. Tinha mesa redonda para discutir os desfiles da madrugada anterior. Como os norte-americanos dizem para os nerds: “get a life!”.

Camarotes
É a maior reunião de gente irrelevante do mundo. Um monte de “artistas” globais que não têm a mínima intimidade com as escolas de samba, com o desfile, com a música, com nada. Só está lá para aparecer na Caras e dar entrevistas falando que é a primeira vez no desfile do Rio, mas está gostando tanto que vai voltar no próximo ano.

O texto não foi escrito por mim, já estava pronto para escrever um texto sobre o carnaval, quando encontrei esse. Concordo absolutamente com conteúdo do texto, ele diz tudo e com certeza eu não faria melhor…

Autor: Ubiratan Leal

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